O problema da morte

Digamos adeus às teorias que fazem da morte o prelúdio do nada ou de castigos sem-fim. Adeus, sombrios fantasmas da Teologia, dogmas medonhos, sentenças inexoráveis, suplícios infernais! A vez da esperança! A vez da vida eterna! Não mais obscuras trevas, é a luz resplandecente que sai dos túmulos. Vocês já viram a borboleta de asas matizadas despojar a informe crisálida onde se fechou a lagarta repugnante? Viram o inseto que, antes, arrastava-se pelo solo, agora livre, franquear, esvoaçar no ar ensolarado, no meio do perfume das flores? Não há imagem mais fiel do fenômeno da morte. O homem também é uma crisálida, que a morte decompõe. O corpo humano, vestimenta de carne, despojo miserável, retorna ao laboratório da Natureza; mas o espírito, depois de haver cumprido sua obra, lança-se numa vida mais elevada, nessa vida espiritual que sucede à existência corporal, como o dia sucede à noite e separa cada uma das nossas encarnações. Compenetrados desses princípios, não temeremos mais a morte. Como nossos pais, os gauleses, ousaremos olhá-la de frente, sem-terror. Não mais temores nem lágrimas, não mais aparelhos sinistros nem cantos lúgubres. Nossos funerais tornar-se-ão uma festa, na qual celebraremos a libertação da alma, seu retorno à verdadeira pátria. A morte é a grande reveladora. Nas horas de provação, quando a sombra nos envolve, às vezes nos perguntamos: Por que nasci? Por que não permaneci na noite profunda, lá, onde não se sente, onde não se sofre, onde se dorme o sono eterno? E, nessas horas de dúvida, de angústia, de aflição, uma voz subia até nós, e essa voz dizia: Sofre para te engrandeceres e para te depurares! Sabe que teu destino é grande. Essa terra fria não será teu sepulcro. Os mundos que brilham no fundo dos céus são tuas moradas do futuro, a herança que Deus te reserva. Tu és para sempre cidadão do Universo; pertences aos séculos futuros como aos séculos passados e, na hora presente, preparas tua elevação. Suporta, então, com calma os males por ti mesmo escolhidos. Semeia na dor e nas lágrimas o grão que brotará nas tuas próximas vidas; semeia também para os outros, como outros semearam por ti! espírito imortal, avança com passo firme na vereda escarpada para as alturas de onde o futuro te aparecerá sem-véu. A ascensão é rude e o suor inundará frequentemente teu rosto; mas, do cume, verás despontar a grande luz, verás brilhar no horizonte o Sol de verdade e justiça! A voz que nos fala, assim, é a dos mortos, a das almas amadas que nos precederam no país da verdadeira vida. Bem longe de dormir sob a pedra, elas velam por nós. Do fundo do invisível, olham-nos e nos sorriem. Adorável e divino mistério! Comunicam-se conosco. Dizem-nos: Basta de dúvidas estéreis, trabalhem e amem. Um dia, preenchida sua tarefa, a morte nos reunirá!

Léon Dennis, no livro Depois da Morte

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